XXXIV


- São comunicações atribuídas a Jesus, e por Allan Kardec aceites como tal, a que consta em O Livro dos Médiuns, Capítulo XXXI - Dissertações espíritas, IX, e a publicada na Revista Espírita,  Setembro de 1868, Instruções dos Espíritos – “Que fizeram de mim?”

Mas analisando “sem prevenção” não deixa de ser, ou parecer, uma apologia católica ao alcance de qualquer clérigo instruído. (O mesmo pode dizer-se das comunicações assinadas por Espírito de Verdade, onde bem se reconhece o sujeito implícito da auto-referência.)   De um Espírito superior não seria de esperar uma espiritualidade situada no território neutro das religiões, lugar, aliás, onde o Espiritismo deveria colocar-se?

 

- O Espiritismo é uma filosofia libertária assente em princípios tais que: Deus como Inteligência suprema e Causa primeira; a imortalidade da alma; a pluralidade de existências; a progressão quase infinita; a pluralidade de mundos; a comunicabilidade dos Espíritos, que povoam o universo e nenhuma matéria  nem distância restringe, - ou é uma crença religiosa que  embora admitindo os mesmos princípios não vai ao fundo das questões, logo, não extraindo delas consequências radicais, por estar atido à forma religiosa da crença?

[Era uma vez um grupo espírita (no Rio de Janeiro, Brasil) que acreditava receber Jesus, a Virgem Maria, apóstolos, profetas do Antigo Testamento, anjos e santos da Igreja católica. Incumbidos de uma missão por aqueles que se comunicavam, missão que consistia em pôr Kardec em segundo plano e reformular a proposta espírita, o zelo apaixonado, o fanatismo atraiu figuras sonantes à causa, que pela relevância social impuseram ao movimento espírita nascente, já por si o terreno fértil do temperamento e da mentalidade onde disseminar a ideia,  um determinado discurso, e assim uma mistificação grosseira passou a moldar o espiritismo divulgado como sendo autêntico.]

O fundo da filosofia espírita e seu móbil maior é o da mudança de mentalidade e transformação social. Este é o fim que não deve perder de vista. De temer são as teorias oponentes a este fim,  que os seus arautos, ora de modo descarado, ora de modo subtil, tentam substituam as ideias originais. O certo é que com de Roustaing a Xavier, de teósofos a Ubaldi, os propósitos contrários ao progresso da Humanidade como que imobilizaram o Espiritismo. Quando se diz que “o espiritismo é simplesmente uma moral e que não deverá sair, nem muito, nem pouco, dos limites da filosofia, se não quiser cair no domínio da curiosidade [LM Cap. XXXI, XVII], inclui-se nos domínios da filosofia a racionalidade e a razoabilidade, sem as quais se cai, inevitavelmente, não somente na curiosidade, mas também na crendeirice e no beatismo.  Acontece que o oportunismo e o sensacionalismo fizeram escola no movimento espírita e o desserviço à causa tem sido enorme. Tornado híbrido e frívolo,  o Espiritismo perdeu encanto para os sérios.

As religiões continuam com imensos fiéis  precisamente por ao serem dogmáticas alijarem os homens do fardo do livre pensar, mas o mundo não avança se o paradigma da heteronomia (heteronomia que interessa a quem detém o poder, seja religioso, político, económico ou outro qualquer) não for substituído. Então,  sem a obsessão do proselitismo o Espiritismo,  com muitos ou com poucos seguidores activos, tem de voltar ao preceito original de autonomia moral e intelectual. Quem tem medo da liberdade, se Deus a outorga?

Para bem compreender um Espírito superior só outro Espírito superior. Dos Espíritos que ao longo dos milénios têm transitado a Terra só um infinitésimo pode ser considerado de superior. Daí se deduz sem receio de engano que Jesus continua a ser um grande incompreendido. Interpretar o que não se compreende resvala em entropia, aqui entendida como deturpação que sendo progressiva culmina em destruição. “Que fizeram de mim?” bem podia dizê-lo Jesus se viesse queixar-se – assim como diria qualquer um dos demais Espíritos superiores que encarnaram na Terra.

As denominações cristãs assumem como inovação moral sua a regra “não faças aos outros o que não queres que te façam a ti”; porém, foi desenvolvida de forma independente por todas as grandes tradições religiosas. Já Confúcio [séculos VI e V A.E.C] a enunciava, e com Vardamana [também conhecido por Mahavira. Séculos VI e V A.E.C.] tomava a enunciação positiva de “comportar-se em relação aos outros como gostariam que os outros se comportassem a respeito de si mesmos”.  É, pois, como que um arquétipo moral da humanidade, de que a compaixão  é contraparte.[1] É a “Regra de Ouro”.  Vários a podem anunciar, e como luminares partilham uma verdade inalterável,  mas são apenas arautos de algo que não lhes pertence. A reverência é-lhes prestada, mas não lhes é devida, tão pouco a procuram, porque têm a humildade perante Deus dos superiores.  

E temos o delicado e proceloso problema das mistificações.

Haverá alguém que lhe seja imune? Basta acreditar numa qualquer coisa (não acreditar é acreditar que não. O próprio materialismo é uma crença metafísica) para ser enganado no que acredita;  os sentidos percebem o que a mente quer perceber. Se acreditas que a Terra é plana vais encontrar quem te alimente a crença. Que importa que a crença seja  factualmente insustentável se ela vive à margem da verosimilhança? Basta desconhecer para ser enganado no que desconhece. Existe a lógica e o bom senso para avaliar, mas as expectativas humanas obliteram facilmente a razão.

As comunicações em pauta: na primeira, a que vem n’O Livro dos Médiuns, é de ler com atenção a nota inserida. Nela constata-se a reserva, a extrema cautela com que Allan Kardec a encarou, deixando ao critério de cada um a aceitação ou a denegação; na segunda, na Revista Espírita, verifica-se que é a transcrição de uma publicação em um jornal espírita estadunidense e que o comentário de Kardec é enfático quanto à caridade e à fraternidade, mas basicamente neutro quanto ao comunicante.

Se o Espiritismo for parte necessária no progresso inelutável há de ocupar o lugar que lhe pertence. Os reveses apenas o purgarão de algum rebotalho para brilhar mais intenso.

 

 

 



[1] A compaixão dispensa o policiamento da religião. Surge em vez de “amor” porque este é já um vocábulo gasto e oco.

 

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