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- O Espiritismo é o Consolador Prometido? (ESE, cap. VI)

 

- Por que surgiu O Evangelho Segundo o Espiritismo? Porque na óptica de Kardec para poder penetrar as massas, e de certa forma acalmar o clero, o Espiritismo tinha de mostrar que era da família cristã.  No seguimento, Kardec terá cedido ao entusiasmo e isso ter-lhe-á retirado alguma lucidez, quer na prova da eleição quer na avaliação do devir do Espiritismo, pois para ser universal não se pode afiliar a ¼ da população, e com menos razão ainda à katholikos de Roma.

Assente no pressuposto da existência de um Cristo planetário [Jesus], este terá feito uma promessa de consolação a uma parcela da população ignorando a maioria, desvelando-a um nicho que  representa menos de 0,2%  (0,002) da população mundial.[1] Mas se esse pressuposto não for verdadeiro, a tese perde a base principal de sustentação. Além de não fazer sentido a preferência, e Deus não tem preferidos, não será apropriação de uma profecia entre as muitas de um povo messiânico, quiçá para credibilizar?

As religiões têm Deus, mas Deus não tem religião.[2] Sendo invenções humanas, as religiões espelham as idiossincrasias dos seus fundadores e mantenedores. O Deus da primeira questão de O Livro dos Espíritos não é o das religiões porque estas o representam noutros termos que não nesta grandeza.

O item 982 d’O Livro dos Espíritos assegura que não é necessário professar o Espiritismo para assegurar a sorte na vida futura, o que o assegura é o bem, e o bem é sempre o bem, qualquer que seja o caminho que a ele conduza. “A crença no Espiritismo ajuda o homem a se melhorar, firmando-lhe as ideias sobre certos pontos do futuro. Apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas, porque faculta nos inteiremos do que seremos um dia. É um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo ensina o homem a suportar as provas com paciência e resignação; afasta-o dos actos que possam retardar-lhe a felicidade, mas ninguém diz que, sem ele, não possa ela ser conseguida.”

E como o Espiritismo não é uma invenção moderna [LE 222: «Constituindo uma lei da Natureza, o Espiritismo há de ter existido desde a origem dos tempos»], muito do que diz pode ser já encontrado no milenar Bardo Thodol (Livro Tibetano dos Mortos), no Baghavad Gita, e mesmo no Livro dos Mortos do Antigo Egipto. Há, portanto, verdades espíritas intemporais, que são consoladoras, mas que regularmente precisam de ser lembradas. E os Espíritos vieram lembrá-las ao ocidente: que a morte não existe; que há novas oportunidades pela reencarnação; que “mortos” e “vivos” podem comunicar-se; que há uma infinidade de mundos habitados. Não é consolador sabê-lo?

Na Introdução em O Evangelho Segundo o Espiritismo, item II, o seguinte: “O Espiritismo não tem nacionalidade e não faz parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo. Cumpre seja assim, para que ele possa conduzir todos os homens à fraternidade. Se não se mantivesse em terreno neutro, alimentaria as dissensões, em vez de apaziguá-las”. Ora esta passagem pode pôr em causa o polémico e restritivo  capítulo VI – e completa a resposta a uma questão posta anteriormente [34].

Dizer que o Espiritismo é o Consolador Prometido e  não cumprir a promessa é atrair justificados julgamentos negativos; não cair no autoelogio mas trazer alegria, conhecimento e saúde integral é cartão de visita divino.  

 


[1] As estimativas apontam para uns 13.000.000 de espíritas, mas o número está a decrescer.

[2] «A religião não é uma interrogação sobre Deus, nem sobre a origem e o sentido do mundo, mas sobre o Homem. Todas as perspectivas religiosas da vida são antropocêntricas. (…) A religião é essa actividade do impulso humano para a sua autopreservação, por meio da qual o Homem procura levar a cabo os seus propósitos vitais básicos contra a adversa pressão do mundo, elevando-se livremente em direcção aos poderes que governam quando chega aos limites da sua própria força.»  (W. Bender, citado por Wiilliam James em As Variedades da Experiência Religiosa) 

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