XXXIX
- A lei moral do trabalho diz que
este é necessário, seja para atender às exigências do corpo, seja para desenvolver a inteligência, mas diz
também que é uma expiação. Não haverá conflito entre necessidade e expiação? Se
é necessário para o progresso, como pode
ser ao mesmo tempo expiação? Juntar as duas coisas não é retomar a ideia bíblica de que o trabalho só
surge como necessário após a desobediência adâmica, e então, sim, além de
necessário é também punição?
- «Comerás o pão com o
suor do teu rosto» [Gn
3, 19] simboliza a condição humana de ter que trabalhar para sobreviver, mas
está inserida no contexto de uma falta – “Queda” - e respectiva punição. Só que
não houve “queda”, o que houve foi saída da ignorância e da ociosidade para o
conhecimento e a actividade. Os homens (Espíritos encarnados) não foram criados
perfeitos, mas são perfectíveis. Estão sujeitos ao progresso, mas jamais ao
retrocesso. No início o homem só conhece a força bruta; à medida que aumenta a
inteligência diminui a força bruta e descobre maneiras de a substituir. O progresso técnico é bem-vindo porque o progresso da humanidade se cumpre em virtude
de uma lei eterna e imutável [A
Génese, XVIII-2].
Tudo está em
actividade – desde o reino mineral até os Espíritos puros. E isto em qualquer
ponto do Universo. E não se diz que Deus trabalha permanentemente? Trabalho não
é só força física; talvez por o entenderem como sendo é que o vêem como
castigo.
O Espírito não foi
criado para ser ignorante e inoperante; o objectivo só se atinge pelo trabalho.
Pensar, superar provas, vencer vícios é esforço, logo, é trabalho. É meio
necessário ao progresso.
Se o trabalho se impõe
ao homem por ser uma consequência da sua natureza corpórea [LE 676], e se a natureza corpórea
não é invenção do homem, então o trabalho não pode ser castigo – ou Deus não é
sumamente bom. Atente-se na questão 684 onde se diz que os que abusando da sua
autoridade impõem aos seus inferiores excessivo trabalho praticam uma das
piores acções. Ora, se este abuso está ao nível do pior nas acções que os
homens praticam, o trabalho é definitivamente sagrado, logo, uma bênção, jamais
um castigo.
Nas relações laborais
das sociedades industrializadas existe escravagismo encapotado, e não está
extinta no mundo a exploração inumana do trabalho infantil; são transgressões à
lei de Deus movidas pela ganância, que acumula ao ónus o desprezo pelo
semelhante.
Não, como lei natural que o trabalho
é não pode ser considerado punição. O trabalho é uma necessidade para o homem [LE 674], mas as políticas
penalizadoras de quem trabalha não podem ser imputadas a Deus.
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