XXXVI
- Deus rege as
acções dos homens através das Suas leis, não directamente (LE 964). Essas leis
funcionam por si próprias ou há um “poder executivo” – governadores de mundos,
de sistemas planetários, de galáxias, como alguns defendem – que zela por que
funcionem?
- Os Espíritos concorrem para a
harmonia do Universo, executando as vontades de Deus, cujos ministros eles são [LE 558]. Também foi dito que a
ocupação dos Espíritos da ordem mais elevada ordem é receber diretamente as
ordens de Deus, transmiti-las ao universo inteiro e velar porque sejam
cumpridas [LE 562 – a)]. Mais que isto não vos foi revelado, pelo que
governadores e governos está por conta da vossa imaginação – e está no
Espiritismo por sincretismo.
Desde que a humanidade se tem
intrigado com os anjos que pressente a existência de Espíritos com envergadura
espiritual superlativa; dá-lhes nomes e atributos, mas não melhores que aqueles
antropomórficos que tem atribuído a Deus. Quem disse que somos merecedores, vós
e nós, de saber o nome de seres de quem a Terra não tem dignidade para que a
hajam pisado? E que sabe do poder da mente quem praticamente ainda só conhece a
força bruta do braço e da máquina?
N’A Génese [na Introdução], num parágrafo em
que não se repara, Allan Kardec regista que às teorias ainda hipotéticas teve o
cuidado de indicar como tais e que devem ser consideradas simples opiniões
pessoais, enquanto não forem confirmadas ou contraditadas, a fim de que não
pese sobre a doutrina a responsabilidade delas.[1]
Mas quem faz do Espiritismo um palco para se exibir não tem o escrúpulo
de confessar como opiniões pessoais teorias não confirmadas nem contraditadas,
e em seguimento do espectáculo faz pesar
sobre o espiritismo a responsabilidade de um governador da Terra.
Não surge por acaso. Foram séculos e séculos a interiorizar que
Jesus era Deus; daí que não seja num cento de anos que o peso do dogma
profundamente enraizado se extirpe do psiquismo humano. É assim que apesar de a
teoria estabelecer no Espiritismo uma diferença entre Jesus e Deus, a prática
atribui-lhe a mesma qualidade, ainda que vestindo-lhe roupa diferente.[2]
Esta nova roupagem institucionalizou em largo segmento do movimento espírita: (i)
que Jesus é o governador da Terra, e (ii)
sendo a Terra coisa menor neste sistema planetário e ainda menos na
escala dos mundos, para melhorar o estatuto passaram a dizer que é concomitantemente
uma espécie de primeiro-ministro do sistema solar.
Qualquer um pode pôr-se a adivinhar,
mas não é por gritar alto o que lhe vai na alma que acerta. Não está a par
daquilo que pensam, dizem ou fazem os Espíritos puros quem quer. Não inventem.
Para reflexão: se Deus criou os
Espíritos e os ciou simples e ignorantes, e se desde sempre antes de serem
Espíritos percorreram os caminhos comuns dos estágios na matéria, isso
significa que todas as leis naturais cumpriam os seus fins sem o concurso de
terceiros, e se são eternas e imutáveis sempre cumprirão. [R. W. Emerson (1803-1882) entendendo
o universo como uma estrutura essencialmente espiritual diz que “as leis
auto-executam-se. Elas estão fora do tempo, fora do espaço, e não sujeitas às
circunstâncias. Assim, na alma do homem existe uma justiça cujas retribuições
são instantâneas e completas. Aquele que executa uma boa acção é
instantaneamente enobrecido. Aquele que executa uma má acção é amesquinhado
pela própria acção.”]
Deus quis que as criaturas colaborem na obra, mas na obra de transmissão de conhecimento e orientação; ademais, de que colaboração Deus necessita? A Lei de Deus está escrita na consciência [LE 621]; à medida que evolui o Espírito melhor a lê e entende e age em conformidade. Citando um de vós: “Os Espíritos (o Princípio Inteligente em evolução) são, na verdade, o objeto principal dessas leis de progresso e perfeição, e não seus administradores primários.”
[1]
N’O Livro dos Médiuns, cap. IV “Dos
Sistemas”, item 48, vem: «Sistema unispírita, ou mono-espírita. - Como
variedade do sistema optimista, temos o que se baseia na crença de que um único
Espírito se comunica com os homens, sendo esse Espírito o Cristo, que é o
protector da Terra.» Esta opinião acerca do Cristo pertence a este sistema e
não a Kardec, como alguns pretendem. O que Kardec em vários momentos admite é
Jesus a presidir ao Espiritismo, fazendo eco das múltiplas comunicações
mediúnicas sobre o assunto. Tanto quanto foi possível respigar, somente uma comunicação isolada de
Hahnemann (RE64, Jan.) fala do Espírito de Verdade como dirigente deste globo.
[2]
O cristianismo foi edificado em torno do
Jesus mitológico, de que se desconhece com exactidão a que distância está do
Jesus real, mas que seguramente não coincidem
- e o espiritismo adoptou o cristianismo como referência.
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